Governo de Pernambuco diploma dez novos Patrimônios Vivos do Estado e celebra a cultura popular

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Titulação ocorreu na abertura da 19ª Semana Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural; semana segue até 21 de agosto, com atividades em dezenas de cidades
O Governo de Pernambuco diplomou, nesta segunda-feira (17), dez novos Patrimônios Vivos do Estado, ampliando para 125 o número de titulados ligados às mais diversas manifestações culturais. A cerimônia, realizada no Cinema São Luiz, marcou a abertura da 19ª Semana Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural de Pernambuco, promovida pela Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) e pela Secretaria de Cultura (Secult), e contou com a presença dos novos titulados, que celebraram a conquista com cantos e batuques e relembraram as trajetórias que os levaram ao reconhecimento.
“Hoje é um daqueles dias que nos lembram por que trabalhar pela cultura de Pernambuco é tão especial. Estamos reconhecendo vidas inteiras dedicadas a preservar aquilo que somos. São mestres, mestras, famílias, grupos e comunidades que aprenderam com quem veio antes e assumiram a missão de ensinar a quem vem depois. São saberes que, muitas vezes, não estão escritos nos livros”, pontuou a secretária de Cultura de Pernambuco em exercício, Ana Paula Jardim.
O número de inscrições nesta edição bateu recorde, com 205 candidaturas. Foram diplomados os seguintes mestres, mestras e grupos: Mestre Zé Negão (coco), Barracão de Mãe Nadja (candomblé), Escola de Samba Preto Velho, Família Vitalino (artesanato em barro), Juliana Pankararu (parteira e benzedeira), Maracatu de Baque Solto Cruzeiro do Forte, Mestra Di (capoeira), Mestre João Paulo (maracatu rural), Teco de Agamenon (artesanato e brincante ligado aos Caretas) e Terreiro de Mãe Amara (candomblé). Ao fim do texto, seguem mais informações sobre a trajetória dos diplomados.
Os escolhidos passaram por um processo seletivo que envolve, entre outras etapas, defesa oral, documentação e comprovação de trabalhos de transmissão de saberes. Eles são eleitos pelos integrantes do Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural (CEPPC). “Quando estávamos no Museu do Estado ouvindo cada um dos candidatos, vimos que cada um não é sozinho, cada um vem com a sua família, cada um vem representando a sua comunidade. Porque o patrimônio traz a sua ancestralidade, ele traz a sua comunidade, ele traz as suas raízes”, afirmou o presidente do CEPPC, Antiógenes Viana.
Os novos Patrimônios Vivos receberão uma bolsa vitalícia e deverão participar de ações de formação e difusão da cultura popular de Pernambuco. Para os grupos, o valor da bolsa é de R$ 4.958,85; para os indivíduos (mestres e mestras), de R$ 2.479,41.
“Trabalhamos muito há anos, atuamos muitas vezes como psicólogos, parteiras, médicos, de tudo um pouco, para a nossa comunidade. Peço que esse prêmio seja entendido como algo dado a todos os terreiros”, declarou emocionada Mametu Nadja, do Barracão de Mãe Nadja. O terreiro, localizado no Ibura, foi o segundo a receber o diploma de Patrimônio Vivo. A história narrada por Mametu Nadja – de muito trabalho, envolvimento comunitário, transmissão de saberes e superação de dificuldades diversas – se repetiu, com variações, nos discursos dos demais vencedores. “Venho de um lugar que costuma ser visto como difícil – mas difícil pra quem?”, questionou Mestra Di, primeira capoeirista a ser reconhecida como Patrimônio Vivo de Pernambuco, com trabalho no Alto do Monte, no Sítio Histórico de Olinda.
MAIS PRÊMIOS – Além da diplomação dos novos Patrimônios Vivos, a abertura da 19ª Semana Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural também celebrou os vencedores do 11º Prêmio Ayrton de Almeida Carvalho, que reconhece iniciativas de preservação e transmissão do patrimônio cultural pernambucano. Ao todo, foram concedidos R$ 90 mil a seis vencedores, sendo três primeiros e três segundos lugares.
Na categoria Formação, foram premiados Francisco Amancio da Silva (Maestro Forró), com a Escola Comunitária de Música da Bomba do Hemetério, em primeiro lugar, e José Allan da Silva, com o projeto “O Brilho da Oxum”, em segundo. Em Promoção e Difusão, Raryson Fulni-Ô conquistou o primeiro lugar com o podcast “Yak’ Shalá”, enquanto Matheus Rodrigues de Souza foi premiado com o projeto “Mepedigital”. Já na categoria Acervos Documentais e Memória Cultural, Barmonte ficou em primeiro lugar, com o site “Oqqbuiquetem”, e Rebeca Rocha Novaes Silva foi premiada com o projeto “Resgate do Cine Recreio: o cinema de rua que vive na memória coletiva florestana”.
Na ocasião, também foi lançada a revista *Aurora 463*, publicação digital e gratuita que reúne as discussões realizadas durante a edição de 2025 da Semana do Patrimônio e estará disponível ao público nos próximos dias.
“A Semana do Patrimônio é um evento consolidado de celebração e reflexão sobre o patrimônio cultural do Estado em suas diversas fases, e neste ano ocorre em 22 municípios do Estado”, sintetizou o coordenador-geral do evento, Flávio Barbosa, também gerente de Educação Patrimonial da Fundarpe. O evento segue até a próxima sexta-feira (21), e a programação completa pode ser conferida em: https://www.even3.com.br/19-semana-do-patrimonio-pernambuco-761257/.
CONHEÇA OS NOVOS PATRIMÔNIOS VIVOS DE PERNAMBUCO
TECO DE AGAMENON – Agamenon Gonçalves Lima Filho, o Teco de Agamenon, é brincante e artesão da tradição dos Caretas de Triunfo desde 1965, quando tinha apenas 8 anos. Aprendeu com os mais velhos, na prática, a confeccionar máscaras, chapéus, relhos e vestimentas e, ao longo da vida, passou a transmitir esses saberes a crianças e jovens, por meio de atividades realizadas em seu quintal, escolas e projetos. Sua atuação também alcançou outros municípios e estados, a exemplo do Ceará, em parceria com o Sesc, além da participação em feiras de artesanato, onde expõe e comercializa suas peças.
FAMÍLIA VITALINO – Formada por descendentes diretos de Mestre Vitalino, com destaque para a linhagem de seu filho Severino Vitalino, a Família Vitalino atua há mais de 60 anos no Alto do Moura, em Caruaru, e mantém, há 54 anos, suas atividades na mesma residência e oficina histórica. Atualmente na quarta e quinta gerações, a família preserva os saberes da chamada “Escola Vitalina” e todo o ciclo de produção da arte figurativa em argila, desde a extração e o preparo do barro até a modelagem, o uso da paleta de cores tradicional e a queima das peças, que retratam o cotidiano e a cultura do povo agrestino.
MESTRE ZÉ NEGÃO – Nascido José Manoel dos Santos, em 1950, Mestre Zé Negão é de ascendência negra e indígena e trabalhou desde a infância no corte da cana-de-açúcar. Iniciou sua trajetória na cultura popular aos 13 anos, passando por folguedos, escolas de samba, Cavalo Marinho, ciranda e coco de roda. Guardião do Coco de Senzala, manifestação afro-indígena com ritmo e cadência ancestral dos engenhos, cria composições autorais inspiradas em sonhos e registradas por sua companheira, Mestra Fátima, abordando temas como a luta contra o racismo e o trabalho na terra. Radicado em Camaragibe desde 1978, fundou o Projeto Negão, em 1994, e o Laboratório de Intervenções Artísticas (Laia), em 2003, além de atuar no desenvolvimento do Loteamento João Paulo II, com ações que envolveram desde mutirões de moradia e saúde até a criação do espaço cultural Canto das Memórias.
JULIANA PANKARARU – Indicada pelo Grupo Curumim Gestação e Parto, Juliana Maria da Silva, conhecida como Juliana Pankararu, é uma mulher indígena de 52 anos que vive no Território Indígena Aldeia Saco dos Barros, em Jatobá, no Sertão de Pernambuco. Atua como mendeira (benzedeira), raizeira e parteira tradicional, preservando saberes ancestrais e práticas da medicina tradicional indígena aprendidos por meio da oralidade com sua mãe, avó e tias. Em sua atuação, utiliza plantas do território indígena na preparação de chás, banhos e garrafadas.
MESTRA DI – Nascida em Olinda, em 1973, Adriana Luz do Nascimento, a Mestra Di, é uma mulher afroindígena e periférica, mãe de duas filhas, com trajetória marcada pelo frevo e pela capoeira. Foi aluna de Mestre Nascimento do Passo e iniciou suas práticas na Capoeira Angola aos 13 anos, em 1985, no Centro de Capoeira Angola Mãe, sob a orientação de Mestre Sapo. Tornou-se contramestra em 2011 e foi diplomada e reconhecida internacionalmente como Mestra de Capoeira Angola em 2016 e 2019. Em 1997, tornou-se a primeira mulher brasileira a ensinar Capoeira Angola na Europa, com atuação na Alemanha e na Itália, antes de retornar ao Brasil, em 2004, para atuar em eventos e projetos voltados às mulheres capoeiristas.
MARACATU CRUZEIRO DO FORTE – Fundado em 1929, no bairro dos Torrões, na Zona Oeste do Recife, o Maracatu de Baque Solto Cruzeiro do Forte surgiu do convívio de trabalhadores rurais oriundos da Zona da Mata Norte e, com quase um século de atuação, tornou-se uma referência histórica da manifestação no ambiente urbano. Atualmente sediado no bairro do Cordeiro, o grupo também desenvolve um trabalho sociocultural voltado à formação de artesãos, ensinando jovens e adultos a bordar e confeccionar figurinos, adereços e as tradicionais golas do maracatu, contribuindo para a capacitação de integrantes da comunidade para o mercado de trabalho.
G.R.E.S. PRETO VELHO – Fundada em 24 de dezembro de 1974 pela tradicional Família Lobo e por lideranças como Mestre Zuza, a Escola de Samba Preto Velho está localizada no Sítio Histórico de Olinda, no Alto da Sé. Única escola de samba em atividade contínua no município, acumula mais de 50 anos de atuação na preservação do samba e das tradições afro-brasileiras. O grupo também funciona como espaço comunitário de transmissão de saberes, com atividades de percussão, dança, confecção artesanal de indumentárias e gestão cultural. A “Bateria Nota 10” é um dos principais símbolos desse trabalho, que envolve crianças, jovens e adultos em ensaios e oficinas, realizados principalmente aos domingos.
BARRACÃO DE MÃE NADJA – Fundado em 1996, no bairro do Ibura, no Recife, por Mametu Baléginam Nadja de Angola Goméia, o Terreiro Kaiangu Kia Itembu (Abassá Axé Oyá Balé Omim) é um centro sagrado do Candomblé de Nação Angola, de matriz Bantu, e atua como espaço de fé, resistência, apoio social e preservação da memória ancestral junto à comunidade local. O terreiro também funciona como uma “escola viva” de formação comunitária, na qual os conhecimentos são transmitidos no cotidiano e por meio do convívio entre gerações, com práticas baseadas na oralidade, na observação, na repetição ritual e na realização de mutirões.
MESTRE JOÃO PAULO – Nascido em Vicência e radicado em Nazaré da Mata, na Mata Norte de Pernambuco, Mestre João Paulo dedica-se há mais de 40 anos ao Maracatu de Baque Solto, também conhecido como Maracatu Rural. Fundador, presidente e mestre do Maracatu Leão Misterioso, criado em 1990, ficou conhecido como “Papa do Maracatu” após o lançamento de seu primeiro CD, em 2002, sendo reconhecido como um dos maiores poetas e mestres de sua geração. Ao longo de sua trajetória, tem transmitido seus saberes de forma oral e prática a novos brincantes, ensinando tanto a poética, com versos, rimas e improvisos, quanto a confecção de golas, chapéus, surrões e guiadas. Também serviu de inspiração e contribuiu para a formação de diversos outros mestres da cultura popular.
TERREIRO DE MÃE AMARA – Fundado em 18 de junho de 1945 por Mãe Amara de Xangô Aganjú (Obá Meji), no bairro de Dois Unidos, no Recife, o Terreiro de Mãe Amara possui mais de 80 anos de atuação na preservação, salvaguarda e difusão da tradição e da cultura nagô em Pernambuco. Organizado a partir de uma estrutura familiar matriarcal, mantém sua liderança e seus saberes ancestrais por meio das descendentes diretas de sua fundadora, entre elas a Yalorixá Maria Helena Mendes Sampaio e suas sucessoras, garantindo a formação contínua por meio da oralidade e da vivência ritual. O terreiro também é responsável por iniciativas culturais e sociais como o Afoxé Oyá Alaxé, o Balé Nagô Ajô e o Coral Amadê Korin Nagô, além de espetáculos formativos. Entre suas iniciativas, destaca-se ainda o pioneirismo na criação da primeira Rede de Mulheres de Terreiro do Brasil, voltada ao fortalecimento da liderança feminina e ao enfrentamento do racismo religioso.






